CRI e CRA são títulos de renda fixa lastreados em dívidas do setor imobiliário e do agronegócio. O CRI é o Certificado de Recebíveis Imobiliários e o CRA é o Certificado de Recebíveis do Agronegócio. Quem compra um deles antecipa dinheiro para empresas desses setores e, em troca, recebe juros. O grande atrativo é que o rendimento é isento de Imposto de Renda para a pessoa física. O ponto de atenção é que nenhum dos dois conta com a garantia do FGC.
Por causa da isenção, esses papéis costumam pagar um retorno líquido maior que o de um CDB de prazo parecido. Só que o risco também é outro. Antes de investir, vale entender de onde vem o dinheiro que paga o investidor.
O que são CRI e CRA e como funciona a securitização
Imagine uma construtora que vendeu apartamentos em 120 parcelas. Ela tem dinheiro a receber por dez anos, mas precisa de caixa agora para a próxima obra. A solução é vender esse fluxo de parcelas a uma companhia securitizadora, que transforma os recebíveis em títulos e os oferece a investidores. Esse processo se chama securitização, e o título resultante é o CRI. No CRA a lógica é a mesma, com dívidas ligadas à produção, à comercialização ou ao beneficiamento de produtos agropecuários.
Quem emite o papel é sempre a securitizadora, mas quem paga a conta, na prática, é o devedor do lastro. É a capacidade de pagamento dele que define o risco. A operação segue as regras do marco legal da securitização (Lei 14.430, de 2022) e é fiscalizada pela Comissão de Valores Mobiliários.
O que pode servir de lastro
- No CRI: financiamentos imobiliários, contratos de compra e venda de imóveis, aluguéis de galpões, lojas e escritórios e dívidas de empresas do setor.
- No CRA: notas e cédulas de produtores rurais, contratos de fornecimento de insumos e dívidas de empresas da cadeia do agronegócio.
- Lastro pulverizado: centenas de devedores pequenos. Um calote isolado pesa pouco.
- Lastro corporativo: um único devedor, em geral uma empresa grande. Todo o risco está concentrado nela.
Desde 2024, o Conselho Monetário Nacional restringiu o tipo de dívida que pode servir de lastro, para que os títulos financiem de fato os setores imobiliário e agro. A oferta ficou mais seletiva desde então.

Como o CRI e o CRA remuneram o investidor
Existem três formatos principais de rentabilidade, os mesmos que você já conhece de outros produtos de renda fixa:
- Pós-fixado: um percentual do CDI ou CDI mais uma taxa fixa. Acompanha os juros básicos.
- Híbrido: IPCA mais uma taxa fixa ao ano. Protege o poder de compra em prazos longos.
- Prefixado: taxa definida no momento da compra, sem variação.
Muitos CRI e CRA pagam juros periódicos, mensais ou semestrais, e amortizam o principal aos poucos. Isso agrada a quem busca renda recorrente e dialoga com a estratégia de viver de renda passiva. Os prazos são longos, quase sempre entre três e dez anos. Para comparar os formatos de taxa com calma, o guia sobre CDB pós-fixado, prefixado e híbrido traz a mesma lógica aplicada a um produto mais simples.
CRI e CRA têm Imposto de Renda? E a garantia do FGC?
Para a pessoa física, os rendimentos de CRI e CRA são isentos de Imposto de Renda, benefício previsto na Lei 11.033, de 2004. Também não há cobrança de IOF. O tema voltou à pauta do Congresso nos últimos anos, com propostas para tributar novas emissões, mas a isenção segue valendo em 2026. Mesmo isento, o investimento precisa aparecer na declaração anual, na ficha de bens e na de rendimentos isentos.
Já o Fundo Garantidor de Créditos não cobre esses títulos. Se o devedor quebrar, não existe a rede de proteção de até R$ 250 mil que vale para CDB, LCI e LCA. O que existe são as garantias da própria operação: alienação fiduciária de imóveis, cessão de recebíveis, aval dos sócios, fundo de reserva. A qualidade dessas garantias varia muito de uma emissão para outra.
CRI e CRA comparados a LCI, LCA, CDB e debêntures incentivadas
| Produto | Quem deve | IR para pessoa física | FGC | Prazo típico |
| CRI e CRA | Empresas e devedores do lastro | Isento | Não | 3 a 10 anos |
| LCI e LCA | Banco emissor | Isento | Sim | Meses a 3 anos |
| CDB | Banco emissor | Tabela regressiva de 22,5% a 15% | Sim | Dias a 5 anos |
| Debênture incentivada | Empresa de infraestrutura | Isento | Não | 5 a 15 anos |
| Tesouro Direto | Governo federal | Tabela regressiva de 22,5% a 15% | Não, risco soberano | Até décadas |
A diferença central entre um CRI e uma LCI está em quem deve. Na LCI, o risco é o banco, com FGC por trás. No CRI, o risco é o devedor final, sem FGC. Por isso o CRI paga mais. Dois comparativos ajudam a enxergar onde cada um se encaixa: LCI ou CDB, qual rende mais e o guia das debêntures incentivadas, que são o parente mais próximo em termos de risco.
Riscos de investir em CRI e CRA

- Risco de crédito: o devedor pode atrasar ou não pagar. É o principal risco e o que exige mais análise.
- Risco de liquidez: não há resgate antecipado com o emissor. Para sair antes, é preciso vender no mercado secundário, às vezes com deságio.
- Marcação a mercado: se os juros sobem, o preço do título cai no extrato. Quem leva até o vencimento recebe o combinado, mas quem vende antes pode perder.
- Pré-pagamento: o devedor pode quitar antes do prazo, e você recebe o dinheiro de volta num momento em que as taxas disponíveis são menores.
- Risco setorial: crises no mercado imobiliário ou quebras de safra afetam vários emissores ao mesmo tempo.
Os juros altos pressionam especialmente devedores alavancados. O texto sobre como os juros altos derrubam os ativos de risco explica esse mecanismo. E quem prefere delegar a escolha dos papéis pode olhar para os fundos imobiliários de papel, que montam carteiras com dezenas de CRIs, ou para os fundos de crédito privado.
Como investir em CRI e CRA na prática
- Abra conta em uma corretora ou banco de investimentos que distribua crédito privado.
- Procure os títulos na área de renda fixa. Há ofertas novas (mercado primário) e papéis de outros investidores (secundário).
- Leia a lâmina e o termo de securitização: quem é o devedor, qual é a garantia, qual o prazo e como são pagos os juros.
- Confira a nota de crédito (rating) e quem a emitiu. Notas AAA e AA indicam menor risco, mas não eliminam a possibilidade de calote.
- Verifique se a oferta é aberta ao público em geral. Algumas são restritas a investidores qualificados, com mais de R$ 1 milhão aplicado.
- Defina o valor. O investimento mínimo costuma ficar em torno de R$ 1.000 por título.
Para quem CRI e CRA fazem sentido na carteira
Esses títulos fazem sentido para quem já tem a reserva de emergência formada, não vai precisar do dinheiro por alguns anos e quer aumentar o retorno da renda fixa aceitando risco de crédito. Não são produto para o primeiro investimento nem para o dinheiro de curto prazo.
Uma regra prática usada por muitos investidores é limitar cada emissor a uma fatia pequena do patrimônio, algo como 3% a 5%, e espalhar entre devedores e setores diferentes. Assim, um calote isolado machuca, mas não compromete o plano. Se a sua carteira ainda está no começo, organize a base antes, com a ajuda do guia sobre renda fixa ou renda variável e do passo a passo para montar a reserva de emergência.
Conteúdo de caráter educativo e informativo, sem consultoria jurídica, contábil ou financeira. Regras, valores, taxas e alíquotas mudam com o tempo, inclusive por decreto ou lei; confirme os dados atualizados nas fontes oficiais e, se precisar, procure um profissional habilitado antes de decidir.