O come-cotas é a antecipação do Imposto de Renda cobrada sobre o rendimento de fundos de investimento. Ele acontece duas vezes por ano, no último dia útil de maio e de novembro, e é recolhido de forma automática: em vez de sair dinheiro da sua conta, o fundo reduz a quantidade de cotas que você tem. A alíquota é de 15% nos fundos de longo prazo e de 20% nos de curto prazo. Em 2026, a próxima cobrança cai em 30 de novembro.
O nome vem daí. Você olha o extrato e vê menos cotas do que no dia anterior, sem ter feito nenhum resgate. Não é erro nem taxa do banco. É imposto, e ele seria pago de qualquer jeito na hora do resgate. A diferença é que, antecipado, ele diminui o efeito dos juros compostos.
O que é o come-cotas e por que ele existe
Em quase todo investimento de renda fixa, o Imposto de Renda só é cobrado quando você resgata. Nos fundos abertos, a Receita Federal não espera: a cada seis meses, cobra o imposto sobre o que rendeu no período. Como muitos cotistas ficam anos sem resgatar, essa foi a forma encontrada para o governo arrecadar ao longo do caminho.
O gestor do fundo faz tudo sozinho. Ele calcula o rendimento de cada cotista desde a última cobrança, aplica a alíquota e cancela o número de cotas equivalente ao imposto. O valor da cota não muda. O que muda é quantas você tem.
Quando o come-cotas é cobrado em 2026
| Cobrança | Data em 2026 | Período de rendimento tributado |
| Primeiro semestre | 29 de maio (sexta-feira) | De dezembro de 2025 a maio de 2026 |
| Segundo semestre | 30 de novembro (segunda-feira) | De junho a novembro de 2026 |
Quem entrou no fundo no meio do semestre paga apenas sobre o rendimento obtido desde a data da aplicação. E se o fundo teve resultado negativo no período, não há come-cotas: não existe imposto sobre prejuízo.
Quais fundos têm come-cotas e quais ficam de fora

| Tipo de investimento | Tem come-cotas? | Como é tributado |
| Fundos de renda fixa e DI | Sim | 15% ou 20% semestral, com ajuste no resgate |
| Fundos multimercado | Sim | 15% ou 20% semestral, com ajuste no resgate |
| Fundos cambiais | Sim | 15% ou 20% semestral, com ajuste no resgate |
| Fundos de ações | Não | 15% sobre o ganho, só no resgate |
| Fundos imobiliários (FIIs) | Não | Rendimentos em geral isentos. 20% sobre ganho na venda |
| ETFs | Não | Imposto apenas na venda das cotas |
| Previdência privada (PGBL e VGBL) | Não | Imposto só no resgate ou no recebimento da renda |
| CDB, LCI, LCA e Tesouro Direto | Não | Não são fundos. Imposto no resgate ou vencimento, quando houver |
Uma mudança importante veio com a Lei 14.754, de 2023: desde 2024, os fundos fechados, que antes só pagavam imposto na amortização ou na liquidação, também passaram a ter cobrança semestral. Ficaram fora da regra os fundos classificados como entidades de investimento que cumprem requisitos específicos, como parte dos FIPs e dos FIDCs. Para entender a categoria mais afetada no dia a dia do investidor, veja o que é um fundo multimercado.
Alíquotas: fundos de curto prazo e de longo prazo
A classificação depende do prazo médio dos títulos que o fundo carrega. Se a carteira tem prazo médio acima de 365 dias, o fundo é de longo prazo. Se tem 365 dias ou menos, é de curto prazo. A informação está na lâmina e no regulamento.
| Tempo de aplicação | Fundo de longo prazo | Fundo de curto prazo |
| Até 180 dias | 22,5% | 22,5% |
| De 181 a 360 dias | 20% | 20% |
| De 361 a 720 dias | 17,5% | 20% |
| Acima de 720 dias | 15% | 20% |
| Come-cotas semestral | 15% | 20% |
O come-cotas usa sempre a menor alíquota de cada tabela. Se você resgatar antes de o prazo dar direito a essa alíquota mínima, o fundo cobra a diferença no resgate. Exemplo: em um fundo de longo prazo, quem resgata com oito meses deve 20% no total. Como o come-cotas já levou 15%, os 5% restantes são descontados na saída.
Exemplo de cálculo do come-cotas
Suponha uma aplicação de R$ 10.000 em um fundo de renda fixa de longo prazo, feita no começo de junho. Até o fim de novembro, o fundo rendeu 6%, e o saldo foi para R$ 10.600.
- Rendimento no semestre: R$ 600.
- Come-cotas de 15%: R$ 90.
- Saldo depois da cobrança: R$ 10.510.
- Se a cota vale R$ 2,00, você tinha 5.300 cotas e passa a ter 5.255. Foram canceladas 45 cotas.
Os R$ 90 deixam de render dali em diante. Em um semestre isso é quase imperceptível. Em dez ou quinze anos, a soma das antecipações reduz o saldo final em comparação com um investimento idêntico tributado apenas no resgate. É o efeito dos juros compostos trabalhando contra você nessa parte do dinheiro.
O peso do come-cotas no longo prazo

Para ter uma ordem de grandeza: em uma aplicação única que rende 10% ao ano por 20 anos, a cobrança semestral faz o investidor chegar ao fim com algo em torno de 10% a 15% menos patrimônio do que teria se o mesmo imposto fosse pago só no resgate. O número exato muda com a taxa e o prazo, mas o sentido é sempre o mesmo. Somado à taxa de administração, ele explica por que um fundo precisa entregar retorno bruto bem acima do referencial para valer a pena.
Isso não transforma os fundos em um mau negócio. Bons gestores compensam o custo com retorno, diversificação e acesso a ativos que a pessoa física não compraria sozinha. O ponto é comparar sempre o resultado líquido, depois de taxas e impostos.
Como reduzir o efeito do come-cotas na sua carteira
- Prefira fundos de longo prazo quando o objetivo permitir. A mordida semestral cai de 20% para 15%.
- Use títulos diretos para objetivos longos. Tesouro Direto e CDB só pagam imposto no resgate ou vencimento. O guia sobre o imposto no Tesouro Direto detalha a regra.
- Considere ETFs de renda fixa. Eles não têm come-cotas e são tributados apenas na venda. Veja como funciona um ETF de renda fixa.
- Avalie a previdência privada para a aposentadoria. PGBL e VGBL não sofrem come-cotas e permitem alíquota de 10% após dez anos na tabela regressiva. Compare em PGBL ou VGBL.
- Evite resgates curtos. Sair antes de 180 dias leva 22,5% do ganho, além de possível IOF nos primeiros 30 dias.
Come-cotas na declaração do Imposto de Renda
O imposto do come-cotas é retido na fonte e definitivo. Você não precisa calcular nem pagar nada por fora. Na declaração anual, basta copiar os dados do informe de rendimentos enviado pela instituição: o saldo do fundo em 31 de dezembro vai na ficha de bens e direitos, e o rendimento líquido vai na ficha de rendimentos sujeitos à tributação exclusiva. O passo a passo geral está no guia de como declarar o Imposto de Renda.
Antes de cada cobrança semestral, vale abrir o extrato e anotar o número de cotas. Assim você reconhece o desconto quando ele aparecer e evita o susto de achar que o fundo perdeu dinheiro.
Conteúdo de caráter educativo e informativo, sem consultoria jurídica, contábil ou financeira. Regras, valores, taxas e alíquotas mudam com o tempo, inclusive por decreto ou lei; confirme os dados atualizados nas fontes oficiais e, se precisar, procure um profissional habilitado antes de decidir.